nov 202013
 

fantasmaSou um apaixonado por jogos. Sério. Gosto mesmo, fico louco ao ver novos jogos e confesso que, se não tenho nenhuma grande febre consumista por praticamente nada, quando vejo jogos me dá uma coceira pra comprar e não parar mais. Finalmente entendo o que acontece com minha mulher em uma loja de sapatos. Hoje trabalho com jogos e se o faço é graças a uma história que carrego, jogando desde pequeno com meus pais, irmãs, primos e amigos, interrompendo apenas quando fui para a universidade.

Estou completando aproximadamente um ano de volta aos jogos de maneira mais intensa. Isso é muito bom e, após ter comprado um pequeno número de jogos, tenho tentado achar amigos para jogar comigo. Os jogos são todos extremamente divertidos e nunca fiz uma sessão de jogos com iniciantes sem que eles saíssem admirados, surpresos e gostando de pelo menos uns dois ou três jogos. No entanto, percebi que a minha grande dificuldade era convencê-los a começar a jogar. E foi aí que percebi que, apesar de serem tão divertidos, eu estava enfrentando um grande fantasma. O fantasma dos jogos clássicos.

E aqui vou fazer uma pausa para fazer uma ressalva. Tenho certeza que, assim como eu, todos se divertiram muito e têm boas memórias com os jogos clássicos. Eles foram ótimos na sua época. Mas comparados aos jogos modernos, eles estão, hmmm, ultrapassados. Por isso vou falar um pouco sobre os antigos jogos e sobre as minhas críticas sobre eles. Me inspirei num artigo semelhante, 6 Board Games That Ruined It for Everyone.

 

1- War
relogioWar. Creio ser esse o jogo que vêm à cabeças das pessoas quando falo que gosto de jogos de tabuleiro. Quando digo isso, já imagino as pessoas lembrando as intermináveis partidas de War com tios quebrando alianças e pactos de não-agressão e detonando a totalidade da América do Sul que elas tinham em troca de não atacar a Argélia/Nigéria (graças a isso até hoje não sei qual fica em cima de qual). Problemas do jogo:

a) Existe estratégia, mas ela é muito superficial;
b) o tempo de jogo é incrivelmente longo, sem muita evolução no modo de jogar;
c) é possível ter eliminação de jogadores logo no primeiro terço ou quarto do jogo, fazendo com que o jogador eliminado fique fora durante o restante do jogo; d) confrontos diretos tendem a ser tensos de uma maneira ruim, com pessoas que acabam brigando e ficando frustradas umas com as outras “Não acredito que você vai me atacar aí”.
d) No War é possível que alguém estabelecer uma vitória clara logo no começo do jogo e mesmo assim o jogo se arrastar por horas. Ou seja, é um suplício prolongado.

 

2- Banco Imobiliário
zzzzOutro jogo onipresente. É comum falar de jogos de tabuleiro e aparecer o Banco Imobiliário. ”Vá para a prisão”, Av. Atlântica era verde, Av. Paulista era amarela e o Morumbi era vermelho, lembra? E eram as cores mais cobiçadas… O que pouca gente sabe é que basicamente, é um jogo que foi criado na primeira década do século passado por uma mulher que queria mostrar para as outras pessoas como o sistema de aluguéis e monopólios era sinistro.

O objetivo do jogo era acabar com todos os oponentes, fazendo-os ir à falência. E aí que começam os problemas, pois:
a) fazer os outros irem à falência pode levar HORAS, sem contar que…
b) …levar os outros à falência pode ser uma experiência divertida para alguns, mas para outros em geral é uma experiência bem negativa, principalmente se você não é o cara que está por cima. E o pior disso tudo é que tudo isso…
c) …depende praticamente só da sorte. Ou seja, você pode ter a melhor estratégia do mundo, mas não vai adiantar nada se a sorte não ajudar muito. Fica-se impotente rezando por melhores rolagens de dados.
d) E o pior de todos os motivos: É um jogo que leva crianças a associar o prazer com o ato de extrair dinheiro dos outro sem misericórdia até que eles vão à falência e saiam do jogo através de estabelecimento de cartéis e monopólios que vão cobrar preços injustos daqueles que tiverem o azar de tirar um certo número nos dados. Creio que se existe algum valor educacional nisso é apenas o de sua criadora: mostrar o quão injusto e errado o sistema capitalista pode ser.
e) Esse é de última hora. Pesquisando um pouco descobri que adicionaram cartões e calculadoras ao jogo. Perfeito, agora nem contas de troco e pagamento as pessoas precisam fazer, é só colocar no cartão e pronto. De quebra todo mundo começa a ter a sensação do mundo real de não estar perdendo dinheiro por estar usando o cartão.

 

3- Jogo da Vida
azarJogo da Vida é aquele jogo onde você roda uma roleta, e anda casas. Vai pra faculdade (sério, alguém escolhe NÃO ir para a universidade?), vira médico/advogado/engenheiro, se casa, tem filhos, vai à falência, morre. Quem tiver mais sorte no final, ganha. Os problemas desse jogo:
a) Olha ela aí de novo: a sorte. Aliás, nesse jogo ela parece ser o único fator.
b) Só sorte = nada de estratégia
c) As opções que existem durante o jogo ou são irrelevantes para o resultado final do jogo ou não são opções de verdade (experimenta não ir para a faculdade para você ver o que é bom!).

 

4- Lig 4
chuchuLig 4 é aquele jogo abstrato em que você tem que formar sequências de quatro peças contra o oponente. Daria pra fazer no papel, mas tudo bem, reconheço que é mais divertido pegar as peças e soltá-las. O problema maior é que:
a) Quem começa tem uma ENORME vantagem.
b) A estratégia envolvida é relativamente simples, difícil não encarar como um jogo e crianças. (talvez por isso exista essa ideia que jogos de tabuleiro são coisa de criança). Depois de algumas poucas partidas é fácil estabelecer um padrão de jogo vencedor.
c) Não é muito mais que um jogo da velha 2.0. :P

 

Alguns dos que leram até aqui devem estar se perguntando nesse momento: Poxa vida, ele acabou com todos os jogos que eu jogava e gostava… Tudo bem, confesso que eu joguei e gostei de todos esses jogos também, mas com os jogos disponíveis hoje em dia, acho um desperdício de tempo ficar em jogos que têm de 30 a 100 anos de idade. Estão todos obsoletos, pois nesses 30 anos que se passaram, muito melhorou, vários ótimos jogos surgiram! Costumo dizer que o Banco Imobiliário e War estão para os jogos de tabuleiros modernos assim como uma gangorra comum está para uma montanha russa. Para se ter uma ideia do tamanho do hobby, ele hoje movimenta, só nos EUA, quase 1 bilhão de dólares. E vem crescendo a passos largos nos últimos 5 ou 6 anos. Na Europa, o número de jogos lançados por ano foi de menos de mil em 97 para mais de três mil em 2005. É só uma questão de tempo para que esses jogos se popularizem pra valer por aqui e isso já começou a acontecer. E você, vai perder essa?

Fernando Tsukumo